sexta-feira, 21 de junho de 2013

Impressões de um agente infiltrado


Todos sabem que trabalho em TV e ontem resolvi fazer imagens do protesto,sem passar pela censura previa dos "democratas" que resolveram transformar a imprensa em bode expiatório. Então de posse de uma mini-câmera , fui capturar alguns instantâneos da fauna revolucionaria. De cara deu para sentir que :

- Se você trocar a trilha sonora vai se sentir em uma rave . Ou melhor , em uma micareta.
- Mudar o mundo de latinha de cerveja fabricada por conglomerado capitalista na mão me parece bem incoerente.
- Era marcha da maconha ou eu peguei a fila errada ?
- Alguns jovens precisam entender que Guns N' Roses não é uma banda punk.
- Quem insistia em vandalizar era vaiado sem dó.
- A policia entregou sim flores,mas no final serviu o prato principal ( porrada )
- Bater em quem tem posição politica me parece uma certa modalidade de fascismo,mas como nunca fui para a universidade posso estar errado.
- Duas meninas tentaram pichar o chão,mas tive que explicar para elas que o spray não sai com a lata deitada ( vamos ler as instruções gente ).
- Foi divertido,mas sem foco e com clima de já ganhou.

O Cândido


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Guerra ao Terror

Está aberta a temporada de caça a usuários de vinagre em São Paulo. O crack claro continua liberado nas dezenas de casas de opio ao ar livre da grande e orgulhosa metrópole brasuca. Crack é questão de saúde publica mas vinagre é questão de segurança nacional e isso não se discute. Nunca é demais atentar para a questão do mero usuário e é necessário separar o joio do trigo : vinagre para uso particular e culinário ainda está liberado e a autuação ou não da senhora sua avó que volta distraída do mercado levando na sacola a perigosa substancia para temperar sua saladinha de cada dia vai ser analisada com muito critério pelas autoridades de plantão. Não tema , eles estão preparados para tal situação. Já que estamos falando de guerra ao terror,gostaria do fundo do coração de pedir aos senhores manifestantes que utilizem seus Iphones de ultima geração para coisas mais produtivas,tipo postar no Instagram fotos do belo fim de semana em Ubatuba ou do ultimo foudue de chocolate com morangos. É de péssimo gosto quebrar vidraças pela Avenida Paulista e ficar batendo foto para mandar para os amiguinhos. Também não faz bem para a ordem e o progresso a sua senhoria ficar espalhando aos quatros cantos da internet as imagens do pobre oficial da policia militar quebrando sua própria viatura , afinal quem nunca teve um dia de fúria ? Esse nobre defensor da ordem publica certamente vai precisar de uns dias de folga para se livrar do dano causado por essa exposição desnecessária de um momento de stress. Vamos ser mais positivos gente. Tá cara a passagem ? vamos andar de carro. A policia tá batendo muito ? vamos tomar um Dorflex antes de sair para o trabalho. O dólar tá super alto e não vai dar para comprar um Ps4 na próxima ida a Miami ? espera chegar no brasil e financia em doze vezes no cartão do papai. O que não dá é para ficarmos denegrindo a imagem do nosso pais desse jeito mundo afora. Como vai ser na Copa ? Já pensou aquele monte de gringos com dinheiro e com tesão , loucos para cheirar e transar com nossas crianças com medo de saírem do hotel ? isso vai refletir super mal na economia informal. No mais é bola pra frente e alegria alegria .

O Cãndido

terça-feira, 11 de junho de 2013

Aos meus



Exijo que seja este meu epitáfio:
Jaz aqui um vilão.
Um errante.
Poeta ridiculamente menor.
Pouco caráter.
Nenhuma fé.
Raros prazeres.
Que se escreva com giz;

tão triste memória pouco deve durar. 

O Cândido


Nathália



O sol do meu amor por ela se recusa a se por.
Um dia eterno de calor suave que entra devagar por minha janela:
acalentando.
Entre seus dedos miúdos se esvaem meus medos e renasço.
Novo.
Banhado.
Inteiro.
Ela é o norte da nau
que pateticamente

conduzo.

O Cândido


Ofertório



Para Luiz Vilela

Antes de morrer quero descer a rua da Matriz e me sentar por um tempo
frente à casa do contista.
Quero antes de morrer olhar para sua janela e esperar quem sabe, que
ele saia nu e dance ou escreva algo no asfalto.

Antes de morrer quero saber de minha terra da boca do contista
quero ouvir por um instante só a sua voz
quero ouvir o Rio Tejuco
quero ouvir as novenas
os passos na casa assombrada.

Antes de morrer quero no ouvido do contista,
como quem conspira, fazer a pergunta que só

o contista sabe a resposta. 

O Cândido


Doze anos



Como um músico de jazz improvisou uma caricia naqueles
seios alvos.
Obliterando toda razão entre dentes agarrou carne agarrou medo agarrou dor.
Sorriu-lhe ao da algibeira sacar toda a solidão do mundo:

Demônios um do outro. 

O Cândido


Peregrino



Apenas o caminho.
O assalto.
O peito arfante.
O sexo túmido.
As frases feitas.
Os passos gramaticamente trôpegos.
Os absurdos ditos por nada.
A ofensa muda.
O cuspe na cara.
O soco na filosofia.

As tantas infinitas incessantes vezes em que fostes apenas tão somente SÓ.

O Cândido


Testamento




Faltavam dois dedos na imagem de Cristo que minha avó guardava na estante.
Faltavam duas ou mais pessoas o tempo todo naquela velha casa:
um vazio frio silencioso.

Sempre se pode ser um pouco mais infeliz.
A vida toda um riacho onde o traidor molhou os lábios.

Na parede a antiga aquarela é a esperança desbotada e suja.
Na velha casa a porta eternamente fechada .


Faltavam lágrimas nos olhos de minha avó. 

O Cândido

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Valsinha



Flerto todos os dias com os olhos de uma mulher.
Flerto com seus seios, seixos perfumados por orvalho e saliva.
Ela me arreganha os dentes e as pernas: Ame-me e me esqueça.

Flerto com a incoerência dessa paixão:
Asco e medo
unhas
riscando
o
quadro
negro.

Vago noite adentro insone de tesão.

O Cândido




Quebranto



A febre daquela sempre mesma hora arde agora
como sempre.
Úmida, emudecendo.

Sempre brinco de não me fazer entender (pelo simples prazer)

Ituiutaba é uma caixa de cacos de amigos de outonos de sussurros de sabores
de igreja da matriz.

Amanhã tem batizado ?
Não.
Todo poeta é pagão.

O Cândido



Benção



Salpicou a folha em branco de versos e de escarro
Fez assim a vida inteira
Nunca soube ser inteiro
O tempo todo vertiginosamente torto
O tempo todo o beijo no filho morto.

O Cândido

Abrigo



Para o filho de quem eu, Fernanda e Nathália, estamos cada dia mais grávidos.


Esperamos por você. Como quem no porto espera a esperança.
Olhamos para você todos os dias:
Você é a criança no parque,
na TV,
na escola aqui perto de casa.
Sonhamos acordados com você.
Dormindo também.
Você mora hoje na possibilidade, mas 
não se demore.
No nosso coração, sua cama está desde já
feita.

O Cândido.